quinta-feira, 27 de março de 2008

Regra de Taylor nos EUA: Parte 2

Obs.: Veja o que é Regra de Taylor primeiro.

Motivação

Greenspan, em discurso à Associação Americana de Economia em 2004, disse duas coisas importantes:

a. A regra de Taylor não serve nem como prescrição, nem como descrição da política monetária da instituição que ele presidia;

b. Em cada reunião do comitê de política monetária, mudam-se os modelos, muda-se as respostas a cada variável. Logo, não havia regra, mas discricionaridade. Possivelmente, uma regra com coeficientes variantes poderia caracterizar a política monetária seguida no banco central, mas deveria incluir muito mais variáveis que eles observavam para tomar decisão.

Quer dizer: os pesquisadores diziam que havia, sim, uma regra; mas, o sujeito racional, que tomava decisão, dizia que não tinha. Então, os pesquisadores, que sabiam mais sobre o sujeito do que ele próprio, deviam estar certos. (Curioso. Bem, não conhecemos nossa função utilidade, mesmo assim, os economistas dizemos que ela existe... vai ver os heterodoxos estão certos.)

Além dessa motivação natural, há as evidências empíricas levantadas no post passado, como o leitor já conhece.

Proposta

O excesso de atividade utilizado em outras formulações pode não ter sido aquele usado pelo comitê de política monetária para definir os juros. Não é possível saber que excesso eles usaram, mas é possível estimá-lo conjuntamente com a regra. Dependendo de como for, a política monetária foi ativa (resposta à inflação superior a 1, indicando estabilidade inflacionária, segundo o Princípio de Taylor) durante o Greenspan.

Se o Greenspan diz que os coeficientes da regra são variáveis, deve ser porque são. Então, estimemos o modelo sob essa hipótese. A mesma técnica resolve o problema do coeficiente variável e do excesso de atividade não observado.

Resultados


Estimar a regra juntamente com o excesso de atividade não altera as conclusões anteriores. Quer dizer, a resposta do juros à inflação continua sendo num proporção menor do que um para um.

Estimando a regra juntamente com o excesso de atividade e permitindo que a resposta de juros varie ao longo do tempo, o coeficiente da inflação dificilmente fica maior do que 1, normalmente é inferior a um, e freqüentemente é negativo, particularmente durante o período Greenspan.

Conseqüências

A primeira conseqüência, creio, é que se comprovou que o Greenspan não mentiu. Quer dizer, a regra é totalmente discricionária, como havia sido dito.

A segunda conseqüência é a associação entre estabilidade e uma resposta à inflação menor do que o estabelicido no princípio de Taylor, mostrando-se, mais uma vez, que ele foi violado.

Se você estiver interessado no trabalho original, clique aqui.

Regra de Taylor nos EUA: Parte 1

Obs.: Veja o que é Regra de Taylor primeiro.

Senso Comum

Usando a Regra de Taylor para caracterizar a política monetária norte-americana, chegam-se, invariavelmente, a duas conclusões:

1. Antes de Paul Volcker tornar-se presidente do banco central americano em 1979, a política monetária norte-americana era instável;

2. Depois do Volcker, tornou-se estável.

Essa conclusão se demonstra calculando-se a resposta dos juros à inflação futura antes e depois do Volcker. Conclui-se que, antes, a resposta é menor do que 1; depois, maior do que 1.

O senso comum parece ter sentido, principalmente porque a inflação no período Greenspan foi muito baixa e o excesso (ou retração) da atividade econômica eram muitos baixo. Se a inflação estava controlada, o princípio de Taylor se aplica.

Inúmeros trabalhos chegam à mesma conclusão, inclusive alguns dizendo que a inflação americana antes do Volcker era estável também.

Problemas

Em minha tese, identifiquei dois problemas comuns a todos os trabalhos anteriores.

1. A data de quebra amostral em 1979 era arbitrária (explico melhor depois);

2. Para estimar a regra, é preciso ter o excesso de atividade, mas a atividade potencial não é observada. Trata-se, entretanto, de uma variável muito importante a determinar a magnitude dos coeficientes dessa regra, ou seja, a resposta dos juros à inflação e ao excesso de atividade. Os outros trabalhos usavam alguma metodologia para obter essa variável e a traziam para a regra exogenamente.

Evidência

Fiz dois exercícios simples. No primeiro, expando a amostra de outros trabalhos para abranger os períodos presidenciais do Volcker e do Greenspans. A resposta a inflação parece ser ainda maior que já havia sido calculado.

No segundo, deslizo a quebra amostral para o ínício do Greenspan. E obtenho resultados totalmente inesperados. Tudo se esvai. Antes de Greenspan, a resposta à inflação é menor do que a proporção um para um. Tudo bem, o período anterior ao Volcker pode estar conduzindo os resultados. Depois do Greenspan, a resposta à inflação cai drasticamente, chegando a ser até negativa, estatisticamente menor do que um em alguns casos, e, normalmente, é um coeficiente bastante volátil.

Conclusões Parciais

1. A data de quebra é fundamental.

2. Algo aconteceu na gestão Greenspan.

3. É a puxada da taxa de juros no período Volcker, época do segundo choque do petróleo, que está "viesando" o coeficiente da inflação para ser maior do que 1.

Regra de Taylor no Regime de Metas

Obs.: Veja o que é regra de Taylor primeiro.

Fundamentos


Na origem, a Regra de Taylor é muito ligada ao regime de metas. Taylor mesmo supõe uma meta implícita na regra. Além disso, os desenvolvimentos teóricos para justificá-la pressupunham a fixação de uma meta.

Então, em 1999, foi criado o regime de metas no Brasil, explicitamente anunciado.

Com o regime de metas também foi criada uma sistemática de coleta de informações sobre as expectativas futuras de inflação para os próximos 12 meses.

Assim, a equação para estimar a Regra de Taylor tinha que mudar. Em vez de colocar inflação, tem que colocar desvio da meta de inflação.

Resultados

Quando eu coloco na regra o desvio da meta em vez de expectativa de inflação futura, o coeficiente da inflação fica maior do que um. Não era surpresa, e estava previso teoricamente.

Mas, algumas surpresas apareceram. Primeiro, mantendo a idéia de usar a expectativa de inflação, como nos períodos anteriores ao regime de metas, a resposta dos juros à essa expectativa perde significância e magnitude.

Bem, coloquei inflação corrente na regra e obtive um coeficiente menor do que um, porém significante. E, pior, a regra descrevia a política monetária tão bem quanto usando o desvio da meta. Então, se o banco central diz que está olhando a inflação para o próximo ano, se há um regime de metas nesse sentido, cabem as perguntas:

1. Como, agora que o banco central está dizendo, explicitamente que persegue uma determinada inflação para os próximos 12 meses, não se consegue obter um coeficiente de expectativa signficante se, quando nada dizia, era possível extrair esse comportamento dele?
2. Como pode uma regra com inflação corrente descrever a mesma política monetária descrita por uma regra com desvios de meta, supostamente determinados por essa expectativa futura de inflação?

Quer dizer, tem algum coisa incoerente acontecendo.

Não tenho respostas para essas perguntas, não era o objetivo da minha tese. Entretanto, lá tem um gráfico em que eu mostro que a diferença entre inflação corrente e desvio da meta é só uma questão de magnitude, pois a direção de variação e intensidade é idêntica.

Conseqüências

A se comprovarem os resultados obtidos, cheguei às seguintes conclusões:

1. As autoridades monetárias não olham mais para o futuro, o que viola, de certa forma, o princípio de racionalidade dos agentes.
2. A inflação corrente determina os desvios da meta.
3. Como desvio e inflação corrente explicam igualmente a política monetária, e como a resposta dos juros à inflação corrente é menor do que 1, mais uma vez, violou-se o princípio de Taylor.

Paper Original

Se você quiser ler o paper original, clique aqui.

Regra de Taylor depois do Real

Obs.: Veja o que é regra de Taylor primeiro.

Resultados


Estimei a Regra de Taylor depois do Real para o Brasil, usando um modelo de expectativas racionais em que o banco central fixa a taxa de juros com base na expectativa futura de inflação e de excesso de atividade econômica. Neste caso, limitei os dados até dezembro de 1998, porque a desvalorização cambial abrupta de janeiro seguinte veio acompanhada de um aumento espetacular da taxa de juros. Esses dois movimentos, obviamente, podem influenciar muito os resultados finais, mas não caracterizam o período como um todo.

Pelo princípio de Taylor, o resultado deveria indicar que a resposta da taxa de juros à inflação devia ser superior à proporção de 1 para 1. Mais ainda, como já era superior a 1 antes da estabilização inflacionária, esperava-se que o coeficiente ficasse ainda maior.

Bem, o Brasil supreende, e o resultado mostrou que a resposta do banco central ainda é baseada nas expectativas futuras, porém numa proporção menor do que 1 para 1.

Há quem diga que os juros respondiam às reservas internacionais, porque a taxa de câmbio era fixa. Bem, não encontrei significância no coeficiente. Nas poucas vezes em que houver alguma significância, seu tamanho era baixo.

Conseqüência

A conseqüência mais importante é teórica, na verdade, pois, mais uma vez, violou-se o princípio de Taylor. Isso indica que o modelo que fundamenta essa regra pode estar furado.

Regra de Taylor durante a Megainflação do Brasil

Obs.: Veja o que é regra de Taylor primeiro.

Senso Comum


Dizia-se que a inflação brasileira até o advento do Real era inercial, porque os contratos eram indexados com base na inflação passada. Portanto, as pessoas olhavam para a inflação do passado e subiam os preços.

Tentei escrever um artigo sobre inflação inercial com meu amigo Marcos Tsuchida. Felizmente, o artigo não sobreviveu ao parecerista. Concluí que não havia entendido o que era inflação inercial. E, talvez por isso, tenha essa fixação para entender inflação, tema da minha tese de doutorado.

Inercial ou não, a inflação estava descontrolada. E, na época, dizia-se que as autoridades monetárias simplesmente referendavam esse ser, imprimindo a moeda corresponente ou aumentando os juros conforme "ela" determinava.

Intuição Econômica

Dito isso, pergunto: se você é um comerciante e sabe que a inflação do mês passado foi de 10%, por que você não aumenta seus preços em, digamos 15%, para ficar mais rico? Parece-me que essa seria a atitude racional dos comerciantes. E os demandantes, sabendo que os preços vão aumentar, tenderão a comprar tanto quanto conseguirem, quando recebem papel moeda. Se isso fizer algum sentido para você, creio que fazia para as autoridades monetárias também. Assim, eles percebiam esse movimento e, para evitar a hiperinflação, obrigatoriamente tinham que aumentar os juros numa proporção maior que a inflação VINDOURA, e não passada.

Resultados

A teoria de inflação inercial nunca prosperou, mas muita gente achava "evidências" dela em modelos econométricos de séries temporais.

Minha tese mostra que esses resultados estavam equivocados, e que a intuição anterior devia ser considerada mais detalhadamente. Para isso, uso como referência a Regra de Taylor.

Estabeleço um modelo de expectativas racionais em que os agentes olham para o futuro. Então, consigo mostrar empiricamente que as autoridades monetárias no Brasil faziam exatamente o que o Taylor propunha, isto é, fixavam a taxa de juros à proporção de 1,5 vezes a inflacão.

Se, em vez de usar a expectativa de inflação futura, eu usasse a inflação passada ou corrente, a resposta teria uma magnitude menor.

Conseqüências

Há três conseqüências a partir dos meus resultados. Primeiro, se a "teoria" de inflação inercial tivesse algum sentido, a resposta à inflação futura deveria ser menor ou igual a resposta à inflação corrente.

Segundo, as autoridades monetárias, e os agentes em geral, não são estúpidas de olhar apenas para trás, mas, sim, estabelecem suas perspectivas de futuro. Creio que este é um resultado bem interessante em contraposição ao consenso de outrora.

Terceiro, há uma associação entre descontrole inflacionário e reação à inflação numa proporção maior do que 1 para 1. Entretanto, não se estabiliza a inflação. Portanto, o princípio de Taylor foi violado.

Regra de Taylor

Fundamentos

O tema da minha tese de doutorado em Chicago é inflação. Não sei se lograrei êxito com a tese, mas já sei os resultados e vou descrevê-los aqui em vários comentários. O primeiro versa sobre Regra de Taylor, que é, de certa maneira, usada no Brasil.

Em 1993, John B. Taylor, professor de Economia de Stanford e então no banco central norte-americano, postulou que a taxa de juros nominal básica observada podia ser expressa por uma simples equação linear. Por essa equação, a taxa de juros responde à inflação e ao excesso de nível de atividade da economia. Em outras palavras, o banco central fixava a taxa de juros segundo uma regra simples: a relação entre juros e inflação devia ser 1,5 para 1, e a relação entre juros e excesso de atividade devia ser 1 para 0,5:

juros nominal = 1,5 x inflação + 0,5 x excesso de atividade.

Intuição

Qual é a intuição da equação? Com relação à inflação é a seguinte. Se a inflação subir, a taxa de juros nominal deve crescer mais rapidamente, para aumentar a taxa de juros real da economia. Ora a inflação representa uma aumento de preços devido a pressões de demanda ou aumento de custos. Aumentando a taxa de juros reais, os consumidores preferirão poupar, reduzindo a demanda. Isso deve aliviar as pressões sobre os custos e descomprimir os preços.

Quanto ao excesso de atividade, a lógica é mais sutil. Existe uma ficção em economia chamada produto potencial, que mede a capacidade da economia produzir sem gerar pressões inflacionárias. Isso não é observado, mas uma analogia com os indivíduos pode ser feita, desde que lembremos que o produto potencial não mede a capacidade máxima de produção.

Suponha um assalariado, cujo contrato estabelece um salário fixo em troca de 8 horas de trabalho, e, se houver hora extra, o salário/hora aumenta em, digamos, 50%. Nesse exemplo, o produto potencial é medido com 8 horas de trabalho. A partir desse ponto, o salário aumenta. Se toda a economia resolver fazer hora extra, haverá excesso de produção em relação ao produto potencial. A renda das pessoas vai aumentar, o que deverá gerar pressões inflacionárias do lado da demanda. Mas os custos médios também vão aumentar, o que gerará aumento de preços do lado da oferta. Em razão disso, a regra de Taylor postula um aumento de taxa de juros para desincentivar o excesso de atividade, desviando recursos para poupança.


Desdobramentos

Depois da evidência empírica apresentada por Taylor, a pesquisa em teoria monetária voltou-se para definir os fundamentos que poderiam justicar essa regra. Versões mais elegantes foram desenvolvidas, pelas quais o banco central fixa o juros com base nas expectativas futuras de inflação e excesso de atividade. A pesquisa empírica procura calcular os coeficientes da regra. Serão mesmo 1,5 e 0,5, respectivamente?

Um dos corolários da regra, também conhecido como princípio de Taylor é o seguinte: há estabilidade inflacionária se, e somente se, o coeficiente da inflação é maior do que 1. Vale o contrário: há instabilidade inflacionária se, e somente se, o coeficiente da inflação é menor do que 1.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Greenspan

A "crise" que vivemos presentemente é culpa do Greenspan que manteve a taxa de juros baixa durante muito tempo, dando margem aos empréstimos indiscriminados dos bancos, e multiplicação dos derivativos lastreados em hipoteca.

A frase anterior é a interpretação da mídia sobre uma crítica originalmente feita pelo Rogoff. A interpretação está sutilmente errada. O que o Rogoff disse é que o Greenspan, ante o benefício de olhar para o passado a partir de hoje, reconheça que errou quando tomou sua decisão.

Farei alguns comentários para delinear melhor o debate, se for possível, e nortear argumentos.

1. O Greenpan é um dos membros do comitê que toma decisões e nem sempre vence as votações. Nesse comitê há um monte de gente inteligente que toma decisões e é assessorada por outro monte de gente inteligente. Entretanto, é fácil fazê-lo ser o bode expiatório da vez, como se isso fosse levar a algum lugar;

2. O comitê de política monetária tomou decisões com base nas informações do momento. Não tem o menor sentido dizer que é preciso reconhecer o erro. A questão é saber ser a decisão foi correta, com base nas informações de então. O Rogoff diz que havia condições de tomar outras decisões com base em certas evidências de então, o que me leva ao próximo ponto.

3. O Rogoff via muitas evidências, mas o bando de gente inteligente que eu citei não via. Quer dizer que o Rogoff é clarividente? Não, só quer dizer que, às vezes, ele acerta. É assim, os economistas acabamos fazendo previsões o tempo todo, algumas acertamos, outras erramos. O comitê de política pode ter errado, mas acertou muitas vezes.

4. Ainda não á claro que o comitê errou nem por que teria errado.

5. Se os bancos emprestaram demais, por excesso de liquidez, é preciso entender que foi liberalidade do banco. Os bancos também podem ter errado e perdido um pouco a noção do risco. Nesse sentido, creio ter sido péssimo salvar o Bears, porque gera incentivos para repetir esse comportamento pernicioso. Quando falam que haveria uma crise sistêmica que poderia levar à falência de outros bancos, é sempre bom pensar na dinâmica do processo. Sim, haveria um certo caos, mas as instituições vindouras seriam mais sólidas. A questão é medir o que gera mais bem estar. Minha suspeita, mas sem provas, é que deixar falir hoje gera mais bem estar intertemporal.

Monocultura

O Brasil viveu a monocultura do pau-brasil, da cana, da mineração, do café e entramos no século passado. Qual é a monocultura da vez?

Para não dizer que é da política, da cultura, da ideologia, direi simplesmente que é a monocultura das idéias econômicas. Por quê?

O debate econômico neste país é pobre de uma maneira geral, mas em particular entre os partidos. É pobre de maneira geral, porque os veículos de comunição têm colunistas predominantemente heterodoxos. O pior são os partidos, pois a discussão se restringe a definir se um vai gastar mais em saúde ou em educação ou em segurança ou em...

Não há um debate realmente de idéias econômicas do tipo: será que a redução drástica de impostos promove o desenvolvimento?

Enfim, é sempre mais do mesmo. E o pior é ter gente que ainda acha que vivemos em pleno "neoliberalismo", seja lá o que isso significa.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Mínimas II

... e o que mais aproxima europeus e americanos é que ambos acreditam que a essência da vida contemporânea está nos frankfurtianos.

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A concorrência está pesada. Preciso voltar a falar de economia. Só hoje ouvi a reporter de uma emissora falar que os EUA pensam em afrouxar o "embarque" a Cuba, e depois o Lulão falar que vai dar o segundo grito de independência (porque segundo alguma dessas contas malucas o Brasil passou de devedor a credor internacional, o que não é nada, não é nada,...não é nada!).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Mínimas

O que diferencia europeus e americanos é que os europeus se divertem no horário de trabalho e usam o tempo livre para assistir cinema francês.

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Aliás, a cabecice do velho mundo está em polvorosa com as eleições americanas. Dá até vontade de votar no McCain.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Tropa de Elite

Após ganhar o Urso de Ouro em Berlin, o diretor do filme Tropa de Elite, José Padilha, concedeu uma entrevista em que dizia mais ou menos o seguinte. Em primeiro lugar, os críticos de cinema brasileiros analisaram seu filme segundo uma visão sociológica marxista. Porém, dizia ele, o filme não fora feito segundo conceitos neoliberais ou marxistas, mas de acordo com conceitos da Teoria do Jogos. Portanto, as críticas ao filme não faziam sentido.

Eu quero analisar brevemente essas afirmativas. Em primeiro lugar, se é verdade que os críticos no Brasil analisam os filmes somente segundos conceitos marxistas, trata-se de uma pobreza intelectual sem tamanho, embora não seja surpreendente.

Em segundo lugar, o diretor Padilha não podia dizer que seu filme era "neoliberal", pois seria julgado e condenado, uma vez que "neoliberal" é um termo que designa eufemisticamente as forças do mal... segundo os heterodoxos.

Em terceiro lugar, o termo "neoliberal", como não está definido em lugar algum, causa confusão e me deixa confortável por não me ter aventurado a defini-lo. Entretanto, os heterodoxos, como já escrevi, usam essa palavra para designar políticas ortodoxas. Por essa razão, se alguém substituir o termo "neoliberal" por ortodoxo no pensamento de Padilha concluirá que o diretor se confundiu. E por quê? Porque a Teoria dos Jogos é bem estabelecida na tradição ortodoxa. Logo, o conceito sobre o qual o filme se firma é ortodoxo ("neoliberal").

Já que estou aqui para tomar chuva mesmo, aproveito para dizer o que achei do filme. O filme é muito bom e tem o sentido de equilíbrio de forças que norteiam as relações entre bandidos e polícia. Nesse diapasão, a Guerra Fria também se estabeleceu sob esse embate de forças, em que o oponente se arma para dissuadir o inimigo de atacá-lo. Sendo um bom filme, merece ser assistido e apreciado. Não assisti a Sangue Negro, mas não é absurdo dizer que europeus são um pouco anti-americanos. Quero crer que Tropa de Elite ganhou porque é melhor do que Sangue Negro.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O FED e a Mocidade (por Rafael Souza)

Muito se argumenta sobre a política monetária implementada pelo FED nos últimos 10 anos e até que ponto esta política teria culminado na atual crise. No entanto, pouco se comenta sobre uma outra função, tão importante quanto, também exercida pelo FED: a de agente regulador do sistema bancário (junto com FDIC, OCC e OTS - outros órgãos reguladores). Nos dois parágrafos seguintes descrevo minha leitura da atual crise e porque aponto como culpados os agentes reguladores e não os bancos.

A função bancária sempre esteve ligada primariamente a dois tipos de risco: risco de crédito - advindo da carteira de empréstimos - e risco de termo de taxa de juros - advindo do descasamento de prazo entre passivos e ativos. Ambos apresentam como característica básica distribuição de retornos extremamente assimétrica. A função primeira e óbvia do regulador bancário, portanto, é mapear a exposição a eventos de cauda e garantir níveis adequados de capital para cobrir perdas advindas dos respectivos cenários de baixíssima probabilidade. Fica claro que os agentes reguladores americanos falharam de forma crassa, ludibriados pela cortina de fumaça gerada pela inovação fomentada nos bancos de investimento em Wall Street.

Enquanto CDOs, CDO2s, CMBSs e outras criações da engenharia financeira eram propagandeadas como forma de melhor diversificar o risco de crédito e reduzir o risco sistêmico, os reguladores não enxergaram um rio de nuances que mais tarde viria a cobrar um preço extremamente caro a toda sociedade. Primeiro, os CDOs acentuaram a assimetria de retornos advinda do risco de crédito, reduzindo a probabilidade da materialização de cenários negativos (nas tranches mais seniores). Isto incentivou a tomada de risco, aumentando o tamanho das perdas nos cenários improváveis. Segundo, os CDOs transferiram este tipo de risco - com distribuição de retornos extremamente assimétrica -para a mão de entidades não-reguladas (hedge funds) e sem a expertise de gestão de crédito dos bancos. E terceiro, os CDOs sintéticos aumentaram a quantidade total de risco no sistema. Três ações de impacto extremamente
relevante que, assim como na física, pediam uma reação imediata dos órgãos reguladores, que simplesmente nao ocorreu.

É preciso entender que nem os incentivos e nem o principal tipo de risco incorrido pelos bancos mudou. Os bancos agiram conforme o script, dados os incentivos. Do lobo mal se espera sempre que ele queira comer a vovozinha. Os agentes reguladores, no entanto, dormiram no ponto e sonharam. Sonharam que 10 anos de inovação em derivativos de crédito trariam apenas benefícios ao sistema financeiro; que o incentivo dos bancos de investimento teria deixado de ser de curto prazo; e que traders e estruturadores estariam desenvolvendo novos produtos para melhorar a eficiência de distribuição de risco pelo sistema. O samba da Mocidade finalmente encontrou seu contraponto: sonhar está custando alguns bilhões de dólares à economia
americana.

Crise americana (forthcoming)

Você sabe o que está por trás da atual crise bancária que tem afetado os Estados Unidos e desafiado a capacidade do FED (banco central americano) de reagir à ameaça de recessão? Não??
.
Bom, eu também não, mas logo mais vou publicar aqui o que pensa Rafael Souza, um dos talentos mais promissores de Wall Street e provavelmente o maior cavaquinista ao norte de Fortaleza, e que tem observado a conjuntura de dentro do furacão.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Trânsito, Alcolismo e a "Solução"

Hoje, 23/01/2008, saiu no Estado de São Paulo que há 150 mil motoristas que dirigem alcolizados nas capitais brasileiras. Além disso, pesquisa feita Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) mostra que 45,5% das pessoas mortas em acidentes de trânsito tinham um nível de álcool no sangue acima do tolerado legalmente.

Segundo a reportagem, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirma que a sociedade brasileira é passiva diante desses delitos e, por isso, alguém lhe deve ter soprado a idéia de impor normas mais rígidas para a concessão da carteira nacional de habilitação.

Os acidentes de trânsito são um problema social, cujos prejuízos atingem bilhões de reais. Há prejuízos absorvidos na esfera privada e boa parte deles na esfera pública quando policiais, bombeiros e ambulâncias são deslocados para atender esses eventos. Além dissos, os custos hospitalares públicos decorrentes disso são absurdos. Portanto, obviamente algo tem que ser feito de modo geral, para evitar aumento de índices de acidentes como ocorrido no fim do ano passado. Em particular, é inadmissível ocorrerem acidentes por alcolismo, trata-se de uma irresponsabilidade sem tamanho e merece punição severa.

Dito isso, vamos ao que o ministro falou. A sociedade brasileira é passiva? Ora, a legislação punitiva está posta pela sociedade. O que falta? Sintetizando, creio que faltam duas ações. Primeiro é fiscalizar, segundo é punir. A primeira ação claramente inexiste por duas razões, umas das quais sórdida. A primeira razão é a inexistência de uma legislação que encarcere o agente executivo que deixa de cumprir sua função fiscalizatória, quando há risco de morte. Isso a sociedade pode mudar, mas não creio que consiga por causa das minorias infiltradas no poder que perderiam com isso. A segunda razão, a sórdida, é achar que o controle de velocidade por meio de radares eletrônicos resolve o problema. É aí que está a questão. As autoridades fiscalizatórias, e arrecadatórias, escondem-se atrás dos radares, como se isso fosse impedir um motorista alcolizado de acidentar-se depois do primeiro radar que nem viu passar. A atitude correta seria parar o carro em alta velocidade, justamente para impedi-lo de acidentar-se, tal como é feito em países civilizados. Quanto à segunda ação... bem, não há punição, não por falta de leis, mas talvez por excesso de leis.

O Ministro sabe que a ação correta é utópica... no Brasil, claro. Então, um luminar qualquer propõe normas mais rígidas para a concessão da carteira de habilitação, que já é rígida além de absurdamente cara. É uma estupidez atroz, porém não é surpresa, já que o Brasil é heterodoxo. Primeiro, supõe-se que os motoristas alcolizados estão entre aqueles que não obteriam a carteira de habilitação sob normas mais rígidas. Claramente, não há como dizer que essa hipótese é correta. Segundo, não há como dizer que as normas mais rígidas conseguirão identificar os motoristas que dirigirão alcolizado. Porém, a proposta tem vigor, porque o emissor das carteiras de habilitação, absolutamente incapaz de diferenciar os agentes sóbrios dos alcolizados, prefere punir uma maioria que agirá corretamente para, discutivelmente, impedir uma minoria de digirir alcolizada.

Agora, analisando o mérito da proposta anterior com experiência de países civilizados, emerge gigante a ineficácia da proposta. Os requisito para obter habilitação nos EUA são mínimos, nada da palhaçada que é no Brasil. O motorista faz uma prova escrita nos moldes do Brasil, exame de vista e exame prático acompanhado por um fiscal na primeira habilitação. Não há psicotécnico. Quanto custa? US$ 10 em Illinois. Quanto tempo demora? 3 horas. O índice de acidentes em Illinois é maior do que o no Brasil? Há mais motoristas alcolizados dirigindo em Illinois do que no Brasil? Não e não. Por quê? Porque há fiscalização e punição.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Cogito, ergo fumo

O processo de expansão da ciência é curioso: alguém pensa num assunto novo, surge uma base de dados que permite investigar algo que ninguém conseguia medir, o avanço técnológico supera antigas barreiras a cálculos mais complexos, etc. E em pouco tempo até os alunos de direito já sabem o que está se passando e têm uma opinião sobre o assunto.

E o que está "de moda" é o processo de formação das habilidades cognitivas e não cognitivas das pessoas, bem como os efeitos disso sobre oportunidades e resultados econômicos ao longo da vida. As pesquisas mostram que a capacidade de raciocínio é formada bem no início da vida, especialmente antes dos 4 anos, e atinge o pico ao redor dos 20 anos, enquanto a capacidade de socialização e comunicação é construída de modo mais lento. A primeira tem maior importância na determinação dos salários, enquanto a segunda desempenha um papel central na estabilidade familiar, etc.

Mas hoje eu soube que há forte evidência de que pessoas com melhor raciocínio são mais propensas a experimentar drogas, de todos os tipos e em todas as idades. Quem diz é Gabriela Conti, da Universidade de Essex, na Inglaterra, que tem usado a British Cohort para demonstrar seu ponto (e não, não há a menor chance da causalidade ser na outra direção, pois as crianças começam a ser seguidas aos 7 anos de idade). Por enquanto a melhor explicação ainda é que inteligência e curiosidade andam lado a lado, mas quem tiver procurando um tópico de pesquisa, essa pode ser uma boa opção.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O quanto a gente (não) sabe sobre educação

Só hoje eu percebi que há uma contradição fundamental neste blog: o principal motivo para existir era poder falar de coisas que a gente acha interessante, mas por outro lado a maioria de nós está em fase de concluir a tese, o que torna os assuntos interessantes extremamente raros. Eu sei, muitos discordam, e por isso algum dia ainda vou postar algo sobre métodos numéricos eficientes para resolver integrais múltiplas. Algum dia.
Mas quando pensava que o "assunto" tinha hibernado nesse inferno polar em que essa cidade se transforma no inverno, eis que aparece por aqui o PB. Para quem não conhece, o PB, é um dos maiores especialistas em distribuição de renda, educação e avaliação de políticas públicas do mundo, e veio passar o trimestre ensinando em nossa universidade. Para resumir, o "assunto" persegue o PB como o cavalo persegue o torrão de açúcar.

E o assunto foi o PISA, essa base de dados que ficou famosa por ter entre outras informações uma prova aplicada a uma amostra de jovens de 15 anos de mais de 20 países, e que todo ano mostra quão fraco é o ensino brasileiro. O fascinante dessa base para quem quer trabalhar com isso é que na verdade há um conjunto muito maior de informações e que são comparáveis entre diferentes países (coletadas com a mesma metodologia, medida nas mesmas grandezas, etc.), o que é raríssimo.

Bom, enquanto a mídia e a maioria dos pesquisadores foi tentar entender os resultados dos testes, o PB foi tentar entender como variavam os hábitos de leitura dos jovens entre diferentes países, já que há na base uma dezena de informações sobre disponibilidade de bibliotecas, livros em casa, potenciais substitutos para o uso do tempo livre (internet, tv,etc.), e o que ele encontrou foi que os brasileiros lêem com frequência superior à média, que esse efeito ocorre nas diversas faixas de renda, e que a leitura tem significativa proporção de livros "de verdade" (e.g. romances). Isso mesmo, o brasileiro lê muito e vai mal na prova!

O trabalho ainda está em andamento, então podem surgir explicações para este fenômeno, but so far this sounds puzzling, doesn't it?.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

"Desenvolvimentista" = "Inflacionista"

Alguém atreveu-se a definir desenvolvimentista. Está na seguinte página dO Estado de São Paulo, publicado em 27/12/2008:
http://txt.estado.com.br/editorias/2007/12/27/opi-1.93.29.20071227.2.1.xml

O autor retrata uma das dimensões nefastas das políticas "desenvolvimentistas". Não é a única, porém basta essa para entender a natureza das intenções desses agentes. Nada obstante, convém assinalar que os "desenvolvimentistas" não necessariamente conhecem os efeitos do que recomendam em termos de políticas.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Bolsa - família

Li semana passada uma avaliação do bolsa-família que me pareceu a mais bem feita até agora. Corretamente, os autores (Fabio e Sergei Soares, e Rafael Osorio) apontam como objetivos do programa aliviar a indigência (corrente) e romper a transmissão intergeneracional da pobreza, uma vez que os filhos dos pobres tem maior probabilidade de ser pobres. Tentam também verificar a magnitude de possíveis efeitos colaterais, como o desincentivo à participação no mercado de trabalho dos membros do domicílio em idade ativa, e incrementam o texto com uma comparação com programas parecidos do Chile e México.

De forma convincente, o trabalho mostra que o programa é bem focalizado, fazendo com que o dinheiro chegue aos mais pobres e reduza a indigência. Menos convincente é a análise dos impactos sobre a transmissão da pobreza, o que não surpreende se considerarmos a limitação dos dados e a maior complexidade do problema. Neste caso, seria fundamental separar os efeitos do programa de tendências seculares de aumento de escolaridade, e investigar a importância dos diferentes mecanismos que atuam sobre as decisões do domicílio manter a criança na escola (por um lado essa é condição necessária ao recebimento do benefício, atenuada por falhas de monitoramento; e por outro eventual afrouxamento na restrição de crédito das famílias faz com que dependam menos da renda do trabalho das crianças).
Se é verdade que não há uma teoria que diga qual a distribuição de renda ideal (e portanto se tal programa deveria existir), também é verdade que dado que se decidiu transferir renda aos pobres - e sempre houve algum tipo de programa dessa natureza - o melhor é que os recursos cheguem de fato aos destinatários, e nesse sentido houve avanços que devem ser creditados principalmente a inovações burocráticas, tais como a unificação e centralização dos programas de transferência sob um mesmo comando e o investimento em descobrir e cadastrar os verdadeiros pobres. Falta ainda saber se o segundo objetivo (em minha opinião, o principal) está sendo atingido, e convencer os governantes a usar o resultado dessas avaliações como guia para aumentar ou diminuir a cobertura do programa. Quem tiver interesse pode baixar esses artigos na página do UNDP: http://www.undp-povertycentre.org/
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Os cariocas daqui vieram me perguntar o que Barueri estava fazendo entre os maiores PIB's municipais do país. Pura desinformação. Eu sempre soube que o futuro do país viria de Barueri.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A Produtividade Deu um Salto para Cima?

O que explica um balanço comercial e de pagamentos superavitário há vários anos associado a uma valorização cambial enorme? Essa é a questão fundamental no Brasil, em que se ouvem empresários exportadores apreensivos, porém o câmbio em contínua valorização. Pela lógica econômica, o câmbio valorizado deveria desestimular exportações até um ponto em que o valor de exportações e importações gerariam um balanço comercial suficientemente positivo ou negativo para compensar um balanço de pagamentos negativo ou positivo. Não é o que acontece no Brasil, sugerindo que estamos numa trajetória para o equilíbrio de longo prazo num câmbio ainda mais baixo.

Há várias formas de explicar esse efeito: investidores especulativos, pressionando o Real para cima; aumento da demanda global em função do crescimento chinês; valorização de produtos primários, particularmente minérios; impostos sobre importação; desvalorização do dólar em razão dos déficits norte-americanos.

A rigor, nenhum desses elementos consegue explicar o que acontece no Brasil ou, se explica, trata-se de um efeito parcial. Os investimentos estrageiros no Brasil são predominantemente de longo prazo. O aumento da demanda chinesa não explica a brutal valorização do real, pois é muito menor do que o que vem ocorrendo. O aumento de preço de minérios explica um pouco esse resultado, embora o grosso da pauta de exportações brasileiras hoje seja constituída de produtos manufaturados (veículos, por exemplo). A desvalorização do dólar explica um pouco, mas foi muito maior no Brasil do que em outros países. O Euro desvalorizou no Brasil também.

É preciso quantificar os efeitos de cada componente, e não vi ninguém que tenha feito isso. Às teses comuns para explicar o que está ocorrendo, acrescento a minha suspeita: houve um brutal aumento de produtividade no Brasil, ainda não mensurado, que fez os preços despencarem, os volumes se manterem, embora as margens possam ter sido comprimidas. Esse salto de produtividade é resultado da abertura comercial iniciada no início dos anos 90 e só dez anos depois desponta.

Recomendação de política: sugiro estimular as importações, principalmente de máquinas e equipamentos via eliminação gradual das tarifas de importação. Lembro que é preciso manter o câmbio flexível, já que a história mostra que as intervenções cambiais SEMPRE foram desastrosas para o país no longo prazo.

Obs.: Gostaria de sugerir que visitassem o blog do Alexandre Schwartzman, que joga luz, muito mais tecnicamente, sobre o que discuto aqui. Especificamente, clique aqui (observação adicionada em 02/04/08).

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Hoje no Estado de São Paulo (16/12/07, página A8) lê-se a respeito da sonegação fiscal, cuja fiscalização era feita via CPMF: "A idéia da Receita é criar uma 'Declaração de Movimentação Financeira' nos mesmos moldes em que foi instituída a Declaração de Operações com Cartão de Crédito (Decred) [...] 'A CPMF [...] não é o único instrumento (de fiscalização) disponível', frisou o ex-secretário da Receita Everardo Macial. Segundo ele, o artigo 5.o da Lei Complementar 105 também permite acesso à movimentação. 'Ela não foi usada na época porque nós já tínhamos a CPMF'." (ver comentário anterior que fiz sobre isso.)

É preciso pensar profundamente para entender de novo a estratégia de atribuir aos sonegadores a idéia de ser contra a CPMF. Esse grupo é numericamente irrelevante, portanto, para efeitos práticos, inexiste. Entretanto, há quem atribua aos homens honestos contra a CPMF, numericamente relevantes, a imagem de sonegador.

Clique aqui para ver o que escrevi anteriormente sobre CPMF, prevendo exatamente o que a Receita Federal menciona hoje no jornal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Fina Ironia

Não sei a definição de “desenvolvimentismo”, nem de “neoliberalismo”, mas sei que se trata de uma das mais brilhantes peças propagandísticas jamais feitas pelo homem na terra.

De fato, o termo “neoliberalismo” é usado por heterodoxos de forma pejorativa, em geral para referir-se a políticas econômicas ortodoxas ou para referir-se a políticas econômicas heterodoxas desastradas.

É preciso notar que nenhum ortodoxo se diz neoliberal, provavelmente porque não sabe o que significa. Nada obstante, o heteroxos associam esse termo aos ortodoxos e suas políticas, isto é, a um ente criado por eles mesmos, mas que não são eles e que serve como “saco de pancadas”; enfim, um factóide muito bem arquitetado. É brilhante, porque eles nunca têm culpa e os ortodoxos sempre são culpados.

Em contraposição, os heterodoxos, arrogantemente, se entitulam “desenvolvimentistas”, embora idéias como reserva de mercado para informática certamente não seja ortodoxa e represente um retrocesso inominável. Mas é brilhante, porque uma política econômica recessiva e necessária jamais será atribuída aos “desenvolvimentistas”. O significado da palavra associa uma imagem boa para quem se denomina assim, embora em essência representam idéias funestas para a maioria da população. Por outro lado, a palavra associa uma imagem negativa para quem não é desse grupo, ainda que paradoxalmente representem a modernidade, eficiência e desenvolvimento.

Enfim, uma fina e sutil ironia.