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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Elefantes do Congo e Amazônia

Os elefantes congoleses estavam ameaçados de extinção. Eram caçados para serem-lhes extraídos o marfim. Solução congolesa: fizeram um cace-e-pague... privado. Resultado: a população de elefantes tem aumentado sistematicamente. Por quê? Ora, não havia direitos de propriedade bem estabelecidos antes, e o governo era incompentente para fiscalizar e coibir a caça indiscriminada.
A discussão sobre a Amazônia é análoga. Há desmatamento porque o governo, apesar dos recordes em arrecadação, é absolutamente incompetente para fiscalizar e coibir o desmatamento. Qual é a solução? Dividir a Amazônia em lotes, de forma a permitir a exploração "sustentada" das riquezas locais pela iniciativa privada. Será muito mais fácil de fiscalizar, até porque haverá a quem responsabilizar pelo descumprimentos das metas de reflorestamento.
Duas observações finais: a proposta não tem nada de novidade, nem de gênio, mas ninguém se atreve a discutir essa solução, a qual já se provou eficaz. Por que ninguém discute essa solução? Deve ser questão se "soberania nacional" (ou incompetência nacional, pode escolher).
A última observação é que o problema de exploração racional é uma elaboração de um problema clássico de programação dinâmica chamado de cutting-tree, cuja solução já é mais que conhecida. Logo, o pecado não é desmatar em si, mas não reflorestar... por falta de definição de direitos de propriedade, em suma.

sábado, 12 de abril de 2008

O Equilíbrio Ruim no Trânsito

Imagine a seguinte situação. Você está trafegando com seu carro e vai passar por um cruzamento. O sinal está verde para você, porém os carros da outra rua não respeitam o sinal vermelho e, indiscriminadamente, avançam mesmo assim. Você e outros motoristas são obrigados a parar, e o sinal fica vermelho para você. Se vocês não fizerem nada, ficarão lá parados até que haja uma brecha, que poderá ocorrer no sinal vermelho ou verde. O que vocês farão? Se viram os outros carros descumprindo a regra de trânsito, certamente avançarão, mesmo no sinal vermelho, antes que a situação anterior se repita e vocês continuem parados. Assim, inicia-se o caos. Conclusão: mesmo que o leitor seja um cumpridor contumaz da lei, é muito provável que vá transgredi-la na situação descrita.

Creio que o leitor que mora em São Paulo, principalmente, já passou por algo parecido. Geralmente, vê-se nessa situação quando um ônibus resolveu avançar a rua e acaba fechando trânsito. Os motoristas fechados reagem e, assim que podem, fecham o trânsito também, e todo mundo fica parado. Entretanto, se todos tivessem respeitado o sinal normalmente, o trânsito não estaria tão ruim.

Por que essa história toda? Para mostrar a situação de caos no trânsito que vivemos não decorre necessariamente de falta de educação no trânsito, mas de um hábito generalizado de descumprir a lei. Mesmo quem não quer descumpri-la, vê-se obrigado a agir assim ante as externalidades negativas originadas por outros motoristas. É quase incontrolável.

Os E.U.A. têm mais carros e é mais fácil obter a carteira de motorista do que no Brasil. No entanto, os acidentes fatais são em muito menor proporção, em razão da fiscalização que há. O custo de monitoramento por veículo nos E.U.A. é muito menor do que no Brasil, porque os motoristas de forma geral respeitam a lei. Não sei se a maioria deles desrespeita as leis de trânsito no Brasil, mas é certo que a proporção daqueles que desrespeitam é tão alta que o custo de monitoramento deles é excessivo, razão pela qual há esse número elevado de acidentes de trânsito em estradas e na cidade e, certamente, congestionamentos.

Há três mensagens que eu queria explicitar a partir dessa história. A primeira é que não adianta tornar mais caro o custo de se obter uma carteira de motorista no Brasil, se continuarmos com essa cultura de não fiscalizar e não punir quem descumpre as regras de trânsito. A segunda é a lição que o Daniel Santos me ensinou hoje: o número de descumprimentos da lei é não-linear, logo o número de fiscais poderá ter que ser bastante elevado para reduzir drasticamente os crimes de trânsito. Uma vez reduzidos, ainda assim terá que se manter um número elevado de fiscais para evitar que se volte à situação anterior de caos no trânsito. A terceira lição é que esse modelo poderia ser aplicado a outros comportamentos coletivos típicos que se observam no Brasil.

Antes que apareça algum heterodoxo desvairado dizendo que estou propondo aumentar os gastos públicos com mais fiscalização, cabe-me dizer que a proporção de renda expropriada da sociedade atualmente é mais do que suficiente para cobrir os custos adicionais de fiscalização. Trata-se apenas de uma realocação de recursos já existentes.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O FED e a Mocidade (por Rafael Souza)

Muito se argumenta sobre a política monetária implementada pelo FED nos últimos 10 anos e até que ponto esta política teria culminado na atual crise. No entanto, pouco se comenta sobre uma outra função, tão importante quanto, também exercida pelo FED: a de agente regulador do sistema bancário (junto com FDIC, OCC e OTS - outros órgãos reguladores). Nos dois parágrafos seguintes descrevo minha leitura da atual crise e porque aponto como culpados os agentes reguladores e não os bancos.

A função bancária sempre esteve ligada primariamente a dois tipos de risco: risco de crédito - advindo da carteira de empréstimos - e risco de termo de taxa de juros - advindo do descasamento de prazo entre passivos e ativos. Ambos apresentam como característica básica distribuição de retornos extremamente assimétrica. A função primeira e óbvia do regulador bancário, portanto, é mapear a exposição a eventos de cauda e garantir níveis adequados de capital para cobrir perdas advindas dos respectivos cenários de baixíssima probabilidade. Fica claro que os agentes reguladores americanos falharam de forma crassa, ludibriados pela cortina de fumaça gerada pela inovação fomentada nos bancos de investimento em Wall Street.

Enquanto CDOs, CDO2s, CMBSs e outras criações da engenharia financeira eram propagandeadas como forma de melhor diversificar o risco de crédito e reduzir o risco sistêmico, os reguladores não enxergaram um rio de nuances que mais tarde viria a cobrar um preço extremamente caro a toda sociedade. Primeiro, os CDOs acentuaram a assimetria de retornos advinda do risco de crédito, reduzindo a probabilidade da materialização de cenários negativos (nas tranches mais seniores). Isto incentivou a tomada de risco, aumentando o tamanho das perdas nos cenários improváveis. Segundo, os CDOs transferiram este tipo de risco - com distribuição de retornos extremamente assimétrica -para a mão de entidades não-reguladas (hedge funds) e sem a expertise de gestão de crédito dos bancos. E terceiro, os CDOs sintéticos aumentaram a quantidade total de risco no sistema. Três ações de impacto extremamente
relevante que, assim como na física, pediam uma reação imediata dos órgãos reguladores, que simplesmente nao ocorreu.

É preciso entender que nem os incentivos e nem o principal tipo de risco incorrido pelos bancos mudou. Os bancos agiram conforme o script, dados os incentivos. Do lobo mal se espera sempre que ele queira comer a vovozinha. Os agentes reguladores, no entanto, dormiram no ponto e sonharam. Sonharam que 10 anos de inovação em derivativos de crédito trariam apenas benefícios ao sistema financeiro; que o incentivo dos bancos de investimento teria deixado de ser de curto prazo; e que traders e estruturadores estariam desenvolvendo novos produtos para melhorar a eficiência de distribuição de risco pelo sistema. O samba da Mocidade finalmente encontrou seu contraponto: sonhar está custando alguns bilhões de dólares à economia
americana.